Nicolato lança em Curitiba “Poemas de terra & mar”

Nicolato lança em Curitiba “Poemas de terra & mar”

Da redação

A obra “Poemas de terra & mar”, que será lançada no dia 01/04, na Livraria Telaranha, em Curitiba (PR), reúne quarenta poemas, que apontam para a pluralidade temática e recursos de linguagem, buscando instalar o leitor no universo das sensações, contemplação da natureza e reflexões socio-existenciais. Nela, Roberto Nicolato, um dos mais talentosos nomes da poesia contemporânea, navega por paisagens oceânicas (neste caso, o mar do Paraná), e aporta em solo firme, criando uma profusão de imagens de uma Minas Gerais histórica e mítica (sua terra natal).

Com o lançamento da coleção de poesias “Poemas de Terra e Mar” (Caravana Editorial), Nicolato afirma ter cumprido um ciclo, concebido uma trilogia poética, iniciada em 2020, com o lançamento de “Pequeno Tratado do Amor e da Natureza (Kotter Editorial)” e, na sequência, com a obra intitulada “A noite sem tempo” (2023/Kotter Editorial), escrita e publicada em recentes tempos pandêmicos. “As minhas três obras abarcam tempos variados, da adolescência à idade adulta, aos tempos atuais, nas principais circunstâncias históricas e pessoais em que estive envolvido”, resume o poeta.

Ele confessa ter a sensação de ter ‘limpado as gavetas’, navegando por um manancial poético do tempo de agora e do passado. “O tempo que nos atravessa, e como reagimos a ele, traduz-se na matéria-prima necessária ao fazer literário e comigo isso acontece naturalmente. Acho que, assim, sempre busco conceber um caráter de verdade aos meus escritos. Matérias-primas do sentimento e da minha razão”. Assim como a contemplação mística que acompanha esse poeta hedonista, anárquico e, porque não romântico, para quem a um bom entendedor “um símbolo basta”.

Em “Poemas de terra & mar”, Nicolato coloca em evidência as múltiplas influências de um ofício iniciado ainda cedo: o jogo de moldar palavras, frases, contingências, ou seja, o ofício da poesia. Assim, dialoga presente com passado, em cadência musical, nas imagens de um universo pleno, mutável e desagregador. “O mar e a montanha traduzem-se na espinha dorsal do meu fazer poético, dessa trilogia em que estão em evidência o amor, o homem e a natureza”, afirma o poeta, ao observar que não nega a importante contribuição de sua quase permanência, por dez anos, no litoral paranaense, mais especificamente no Pontal do Paraná, de onde se avistava, em suas caminhadas a exuberante Ilha do Mel. “Ali, pude conectar tempos e espaços diferentes, alheio às exigências da vida urbana e dos compromissos. Como num caleidoscópio, tentei criar uma profusão de ritmos e cores. Um exagero do belo”, confidencia.

O livros, que integram essa trilogia poética do escritor, podem ser vistos em uma estrutura linear crescente, em versos a priori curtos, depois mais longos, balizados pela diversificação temática, preocupações específicas em diferentes ponto de vista e perspectivas, buscando conceituar ou ampliar o sentido do que  é vivido, experimentado, até torná-lo matéria de poesia, com o que há de mais singelo, crítico ou anárquico. O primeiro livro de poesias “Pequeno Tratado do Amor e da Natureza” já trazia essas preocupações, apontando para essas clarividências, em poemas não muito longos, mas cuja densidade é capaz de criar a mais pura revelação da irmandade natural entre homem e natureza, esse templo de amor e contemplação.

A segunda coleção de poemas “A noite sem tempo” traz uma peculiaridade e, mais do que isso, traz a marca de um tempo assombroso. Boa parte dos poemas foram escritos durante a período da pandemia, outros foram trazidos à tona, guardados de gaveta, que, segundo o poeta Roberto Nicolato, ganharam vida nova por meio de um trabalho incansável com as palavras e sobre o que significam, representam. Do primeiro trabalho poético, carrega essa relação intrínseca com os elementos da natureza, porém alcança caráter universal ao ampliar o horizonte de preocupações, em poemas longos, muito além dos temas que afetam o cotidiano de sua aldeia. No mais, o livro atenta para a ameaça antidemocrática e o ressurgimento de teses fascistas em terras brasileiras.

Nesses três livros de poemas, conforme Nicolato, consubstanciam vertentes, olhares específicos, temas muito caros para serem mencionados, sob o entendimento perspicaz e singular do poeta. Em suma, a natureza como um templo, como diria Baudelaire, onde residem mistérios. “E a compreensão desse templo requer nudez dos pensamentos e da alma. Irmandade, contemplação e devoção. Da natureza. Do amor. Do homem. Como num tratado. Da natureza que molda o homem, aos seus caprichos, mas que também o liberta no seu infinito olhar. Da natureza que se faz oculta, clandestina. A natureza exuberante da Terra Brasilis”.

Em toda a trilogia, há diversos poemas sobre a natureza. Fauna e flora na abundância, em movimento ou estacionadas como o navio abandonado ao fundo do mar. A natureza como protagonista dessa célebre festa para o olhar do poeta, e por que não do leitor, em imagens sinestésicas capazes de alumbrar os sentidos, e até mesmo irromper a dança da chuva. “A natureza que em meus passos traduz em orações cadenciadas, ao passo ligeiro, modulado. Paisagem impressionista, iluminada ao sol do começo do fim da tarde. Cada palavra, um som. Cada rito uma imagem”, proclama o poeta.

Os três livros compreendem cerca de cinquenta anos de poesia na história do escritor. Conforme observa Nicolato, é também uma antologia do muito que não foi publicado. Segundo ele, uma parcela não desprezível de textos que se mantiveram intocáveis, outros que exigiram adereços e um novo sentido, e até aqueles em que restaram o espírito vivo de uma percepção, sentimento ou compreensão do mundo. “Neles, era preciso preservar a sua época, a essência, ou até criar uma nova forma, estrutura. A poesia me chega em ondas. Reflete o tempo e o lugar onde vivi. Tenho por conta. As influências momentâneas. Nela, pode haver o clamor da juventude anárquica, daquele que imagina ser um sujeito tímido, rebelde, avesso às convenções ou o olhar extasiado perante o amor e a natureza”, filosofa.

De forma geral, a trilogia constitui-se num relato poético de uma existência, que se desnuda frente ao universo com o que ele tem de mais belo e ameaçador. Conforme Roberto Nicolato, poemas desenhados no passado foram resgatados nas obras “Pequeno Tratado da Natureza”, “A Noite sem Tempo” e “Poemas de Terra & Mar”. “Eles não sobreviveriam por si sós. Faltavam-lhe musculatura. Por isso, muitos ganharam novas versões e, o melhor, passaram a integrar um corpo poético, substancial, ao lado de outros de agora e mais maduros. Enfim, nesses se fundiram, ganharam unidade e compreensão do leitor do tempo e do espaço em que foram moldados. Assim, espera-se”.

O poeta também não se faz de rogado com seu olhar agora distanciado da trilogia ora apresentada. “Posso ter exagerado sim, com tintas um tanto fortes na elaboração de alguns poemas e, quem sabe, apelativas. Não escondo os arroubos românticos de quem leu na adolescência a coleção em miniatura dos poetas brasileiros, da geração perdida, melancólica, do século 19. Ou então, no curso da vida acadêmica, apreciador de um estudo mais atinado dos simbolistas franceses”, brinca. A temática do amor e da morte encontra-se muito presente nas três coleções e, principalmente, como testemunho de um tempo, como o obscuro período da pandemia, da morte onipresente. No entanto, na elaboração do livro “A noite sem tempo”, por exemplo, Nicolato não revela a tragédia por si só, mas traduz em palavras a leveza e o apaziguamento diante do caos e do horror.

“A noite sem tempo” também dá título a um poema no segundo livro de poesias do escritor; no fundo, como ele diz, uma toada antifascista a ser declamada na cadência de murros sobre a mesa, como um aviso, um alerta. No mais, a obra segue sob signo da leveza, da constatação de que a poesia está sempre buscando revelar o que há de mais belo nas coisas e na existência, em todos os sentidos. Por que essa preocupação? “Há sim um compromisso com a realidade fugaz e a concepção de um universo ao mesmo tempo perto e distante. Passível de ser contemplado, analisado e, porque não, representado e fixado no aqui e agora, pela contingência das palavras”, revela Nicolato.

Por fim, no livro “Poemas de Terra e Mar”, o poeta ressurge como um artífice, capaz de moldar um palavrório do que restou após a turbulência, de um voo raso e bastante profundo, no enfrentamento da tempestade. “Restaram não apenas destroços de um tempo pandêmico, mas também um caudal de versos compostos, desenhados ao som das ondas, nas madrugadas, do período em que dividi morada, por cerca de dez anos, no litoral do Paraná”. A visão do mar aberto, se estendendo na imensidão ficará na memória e nas páginas do livro, de um corpo seguindo marcas deixadas na areia da praia, debaixo de um céu azul ou ameaçador de uma natureza intocável.

Anárquico, solitário, sem pousada. O poeta farta-se de terra e mar. Tudo está dito. O último livro dessa trilogia reconecta o poeta de um passado em terras mineiras, nas montanhas, com a vivência vasta de um universo sem porteiras. O mar. De uma universalidade que encontra ressonância nos pequenos barcos e navios ao largo. Dos pássaros que cantarolam ao amanhecer, às imagens que sobreviveram nas gavetas e que Nicolato carregou consigo nas suas andanças. “De fato, há em comum nessas três obras o retrato de um tempo jovem, quando era preciso certa dose de rebeldia em face de um universo que sempre nos quer atento mas, antes de tudo, em completa e leve imersão”.